Charge de Gerson Kauer |
juiz de Direito (RS).
Podem dizer o que quiserem de mim, mas acredito piamente naquela moça que afirmou ter sido"pescoceada pelo lobisomem". Ele existe, sim, e não é de hoje que vem dando o ar da sua feiúra pelos ermos e encruzilhadas. O falecido advogado cachoeirense Serafim Machado até escreveu um livro justificando a sua crença na existência da besta peluda.
Tenho um amigo, o João Pedro de Freitas Xavier, promotor de Justiça em Porto Alegre, que se tornou catedrático no estudo do avermelhado das escuridões. Ele me contou que lá na Bossoroca ("onde a ovelha não dá lã e o tatu não sai da toca"), seu pai soube da história de um velho peão de estância, um índio muito vivido, que, bem dizer, era como um livro: sabia tudo e não falava nada! Só abria a boca para dizer o necessário.
Pois o tal peão, numa noite de lua cheia, numa sexta-feira, estava mateando com a peonada em um galpão de estância perdido num rincão daquele sagrado chão colorado. A conversa era em torno do mesmíssimo assunto que se trata até aqui: lobisomem!
E dê-lhe falar. Sobre como é que o homem se transformava no dito cujo; se era o sétimo filho, o sétimo filho homem, ou se era o homem que nascesse depois de sete mulheres; se matava com estaca ou com bala de prata; se o lobisomem, cobrindo uma mulher, passava a maldição pras crias, ou, então, se passava por mordida, pelo sangue, e por aí afora.
Até que, num determinado momento, um dos interlocutores, em clara atitude de desafio, se virou para o velho peão - tido, por todos, como detentor da palavra final e definitiva sobre qualquer assunto - e fez a pergunta mais difícil, marcando bem a conjugação do verbo acreditar:
- Mas, seu Gervásio, o senhor acredita em lobisomem?
O velho, sem qualquer alteração, deu uma tragada larga no palheiro com figueirilha, soltando, depois, uma nuvem de fumaça, que deixou o ambiente ainda mais escuro e esfumaçado, e sentenciou, para a posteridade:
- Olha, rapaz, se existe o nome, existe o bicho!